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20/4/2016
Economia
Substituição de importações ganhou fôlego com a desvalorização do real
Valor Econômico


Jornalista: Arícia Martins
19/04/2016 - Considerado como único elemento positivo no cenário para a atividade industrial este ano, o patamar mais desvalorizado do câmbio parece já ter surtido efeito mais claro de redução na parcela de produtos importados consumidos no mercado interno. Segundo cálculos da LCA Consultores, o coeficiente de importações no total da indústria, que já chegou a 19,1% em janeiro de 2013, recuou 1,9 ponto entre fevereiro de 2015 e igual mês de 2016, para 17%. Esse é o menor índice para o segundo mês do ano desde 2011, quando esse percentual estava em 16%. Analistas destacam que, mesmo com a apreciação mais recente do câmbio, a indústria mantém a estratégia de substituir importações.

Para reduzir a volatilidade mensal do indicador - que mostra a fatia de bens importados sobre o chamado "consumo aparente", ou seja, a soma da importação e da produção doméstica, descontadas as exportações - o economista Rodrigo Nishida usou o cálculo da média móvel trimestral do coeficiente de importações. Embora a queda do índice na comparação anual seja relevante, há estabilização dessa medida nos últimos dois meses, pondera Nishida.

Em sua avaliação, o movimento de estabilidade nos dados mais recentes pode estar sendo provocado pelo aumento substancial no volume exportado, que afeta o cálculo do coeficiente de importações. "Vemos tendência de queda das importações em volume, mas a evolução favorável das exportações acaba segurando o índice", explica. Segundo dados da Fundação Centro de Estudos do Comércio Exterior (Funcex), o volume total exportado pelo país subiu 19,6% no primeiro bimestre contra igual período de 2015, enquanto o quantum importado encolheu 26,9% em igual comparação.

Mesmo com a relativa estabilidade nos últimos dois meses, para o economista da LCA, a série do coeficiente indica que há em curso uma tendência de substituição de fornecedores externos por domésticos, uma vez que o indicador recuou dois pontos desde o começo de 2015 até fevereiro. Dos 22 setores da indústria de transformação analisados, o coeficiente de importações ficou menor em 19, na comparação com a média dos três meses encerrados em fevereiro de 2015.

As maiores reduções ocorreram nos segmentos de coque, produtos derivados de petróleo e biocombustíveis (-6,2 pontos), vestuário (-5 pontos), têxteis (4,7 pontos) e máquinas, aparelhos e materiais elétricos (-3,3 pontos). No primeiro setor, Nishida avalia que a retração forte foi causada mais por alguma política interna da Petrobras do que por fundamentos que justifiquem um esforço para conter as compras externas de combustíveis, uma vez que a queda nas cotações de petróleo ainda torna as importações desses produtos vantajosa. De acordo com a Funcex, o volume importado de combustíveis caiu 31,3% no primeiro bimestre.


Para Rafael Fagundes Cagnin, economista do Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (Iedi), os setores que estão se beneficiando mais no momento com a substituição de importações são aqueles com capacidade produtiva ociosa, dado que, no atual ambiente econômico adverso, qualquer aumento de produção que exija investimentos não é uma decisão viável. Por isso, argumenta, o processo de troca de fornecedores externos por internos tende a ser lento e cheio de percalços nos demais ramos industriais.

Os que já estão colhendo algum benefício desse processo no momento têm mais condições de reagir mais rapidamente à mudança do câmbio, diz Cagnin, citando ramos da indústria como têxteis, vestuário, calçados - onde o incentivo via exportações é mais relevante -, papel e celulose e produtos químicos, onde estão os insumos para a produção. Neste último segmento, o coeficiente de importações, mesmo em queda, continua em nível elevado (30,9%), número que o economista relaciona ao longo período de câmbio valorizado, que levou a indústria nacional a elevar o peso de insumos importados no processo produtivo.

Essa mesma "perda" de fabricantes domésticos ocorreu no segmento de equipamentos de informática e produtos eletrônicos, observa Antônio Corrêa de Lacerda, professor da PUC-SP e sócio-diretor de uma consultoria que leva seu nome. Assim, é difícil que ocorra uma queda maior no coeficiente de importações desse setor, que caiu de 45% para 42,6% entre o trimestre encerrado em fevereiro de 2015 e igual período deste ano.

No total da indústria, avalia Lacerda, a retração na participação das importações no consumo interno foi provocada tanto pela crise, que derrubou a demanda doméstica e, consequentemente, as compras externas, quanto pelo início de um processo de substituição de importações, incentivado pela taxa de câmbio mais perto do nível de equilíbrio para o setor. Em seus cálculos, essa taxa estaria hoje entre R$ 3,70 e R$ 3,80.

Por isso, ele afirma que o recente movimento de valorização do câmbio preocupa, assim como a elevada volatilidade da trajetória do real em relação ao dólar. Com o câmbio no nível atual, ainda há incentivo à substituição de importações, diz o professor da PUC, mas uma apreciação adicional seria um retrocesso, porque eliminaria de vez qualquer chance de a indústria voltar a ser um vetor de crescimento econômico. "Sem o câmbio, a indústria está fora do jogo."

O câmbio um pouco mais apreciado ainda não foi suficiente para que as empresas que já estavam avaliando substituir fornecedores externos ou domésticos abandonem a estratégia, na visão de Cagnin. A variação recente trouxe de volta, no entanto, a percepção de que a trajetória do real em relação à divisa americana é bastante volátil, o que pode atrapalhar o processo de substituição de importações. "Se essa volatilidade se mantiver nos próximos meses, as estratégias podem ser revistas."

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