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2/4/2020
Ciencia e Tecnologia
Cientistas publicam um novo estudo a cada três horas
Folha de S.Paulo


Jornalistas: Sabine Righetti e Estêvão Gamba
02/04/20 - De todas as frentes que estão tentando trazer respostas sobre o novo coronavírus (Sars-CoV-2) e sobre a doença causada por ele (Covid-19), a ciência talvez tenha agido com mais rapidez. Até o final de março, pesquisadores do mundo todo já tinham publicado 642 estudos científicos especificamente sobre o novo vírus e sobre a nova doença, cuja aparição foi relatada no final do ano passado, na China. É uma média de um estudo novo a cada três horas.

São os cientistas chineses, aliás, que lideram os trabalhos: 37% das pesquisas têm, por trás, um autor de uma instituição de pesquisa da China. Estados Unidos, Reino Unido e Alemanha aparecem na sequência como líderes nos trabalhos. Juntos, esses quatro países somam mais da metade dos novos resultados acadêmicos na área.

Os estudos são dedicados a entender a origem e a transmissão da doença, formas de diagnóstico clínico, o genoma do novo vírus, a progressão estatística da pandemia, tratamentos. Há análises específicas dos primeiros casos nos EUA, na Europa e na Arábia Saudita. Também há trabalhos sobre saúde mental em isolamento social e sobre impactos na economia mundial.

Isso significa, basicamente, que pesquisadores de todas as áreas do conhecimento estão olhando para a pandemia.

O Brasil não fica para trás nas novas publicações: está em 16º lugar no mundo em novos estudos especificamente sobre a Covid-19 em 2020 — 1,6% do total publicado. São trabalhos de pesquisadores da Fiocruz, da USP, da Unesp (Universidade Estadual Paulista), do Instituto Evandro Chagas e das universidade federais de Uberlândia, de Viçosa, do Oeste da Bahia, do Pará e do Paraná. Todos em coautoria com trabalhos internacionais.

O principal deles em termos de impacto acadêmico saiu no periódico médico The Lancet em 15 de fevereiro, com resultados apresentados em 24 de janeiro. Liderado pelo Hospital Yin-tan, em Wuhan, China, o trabalho analisou as características de 41 pacientes confirmados com a Covid-19 em janeiro. Foi o primeiro estudo sistemático com respostas mais claras sobre a doença.

Esse trabalho foi mencionado em 124 novos estudos nos dias seguintes à sua publicação. Recebeu mais de 1,4 mil citações no Google Scholar, que inclui menções em trabalho não acadêmicos.

Os coronavírus foram mencionados pela primeira vez em 1968 em um editorial do periódico científico britânico Nature. Desde lá, pesquisadores do mundo todo já publicaram 22.705 artigos científicos sobre o tema. Para fins de comparação, há 19.174 artigos científicos sobre H1N1 desde que esse agente infeccioso apareceu nos periódicos acadêmicos, em 1973.

Na série histórica, a USP concentra 43% das publicações brasileiras sobre os coronavírus, seguida pela Unifesp (Universidade Federal de São Paulo). Entre as dez primeiras instituições brasileiras que mais estudaram o tema as últimas décadas estão ainda a Fiocruz e o Hospital Israelita Albert Einstein.

Hoje, há pesquisadores brasileiros de instituições de todo o país dedicados ao novo coronavírus e à Covid-19. Muitos têm relatado dificuldades estruturais por causa de corte de recursos para ciência. Uma das pesquisas, coordenada pelo professor Fernando Lucas de Melo, do Instituto de Ciências Biológicas da UnB, acabou de ter um financiamento de doutorado cortado pela agência federal Capes, ligada ao MEC. O estudante que ficou sem recursos estava tratando de sequenciar o genoma do novo coronavírus.

O levantamento foi feito pela Folha em 1º de abril a partir de palavras-chave na base de periódicos internacional Web of Science seguindo a mesma metodologia do RUF (Ranking Universitário Folha ).A base nacional de periódicos acadêmicos SciELO, que está na Web of Science, integra a busca. Não foi encontrado nenhum trabalho que tenha chamado o novo patógeno de “vírus chinês”. A ciência não relaciona mais nome de vírus ao seu local de origem. Isso aconteceu, com a “gripe espanhola”, que, há evidências, teria surgido nos EUA.

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